Por Michele Prazeres

É evidente que podemos discutir as noções de felicidade e bem-estar e a captura dessas ideias pelas próprias plataformas para vender soluções fáceis e receitas milagrosas de alegria por aí. E até para afirmar que precisamos estar contentes o tempo todo. A tristeza faz parte da experiência humana. Mas o que está em jogo aqui é a tristeza como epidemia, que prepondera e traz riscos à saúde mental desde muito cedo. Por isso, é importante ponderar e olhar esses dados de forma situada em cada contexto, para lidar com questões que se apresentam diante de nós. E esse olhar precisa ser cuidadoso e não apressado, para contemplar a complexidade e as especificidades de cada contexto, para não corrermos o risco de, apressadamente, tentar resolver a questão e ficarmos reféns dessas saídas fáceis.

O diagnóstico é crítico: acessar as redes por cinco horas ou mais por dia dobra o risco de depressão. E o efeito é cumulativo: cada hora a mais de uso aumenta esse risco em 13%. Entre meninas latino-americanas, quem não usa redes sociais tem 65% mais chance de relatar alta satisfação com a vida.

Os números indicam que o problema é mais intenso na América Latina, onde 12,1% dos adolescentes passam sete horas ou mais por dia nas redes sociais. Na Europa Ocidental, essa proporção é de 4,9%. O estudo mostra um cenário alarmante de saúde mental entre adolescentes de 13 a 17 anos no Brasil. Cerca de três em cada dez jovens relatam tristeza frequente, com meninas sendo mais afetadas: 41% relatam tristeza e 25% sentem que a vida “não vale a pena”.

No livro “A Geração Ansiosa”, o psicólogo social Jonathan Haidt afirma que a crise de saúde mental entre crianças e adolescentes está diretamente relacionada à forma como a infância foi “reconfigurada” pelas tecnologias. Ele trata da lógica digital “encarnada” especialmente em smartphones e redes sociais. Para o autor, a combinação entre hiperconectividade precoce e redução do tempo de vida offline está produzindo uma geração mais ansiosa, deprimida e fragilizada socialmente.

Haidt alerta para quatro danos principais: privação social, privação de sono, atenção fragmentada e vício. Ele aponta que as meninas estão mais expostas a esses e outros males, especialmente por conta da lógica de comparação em que operam algumas redes como o Instagram, sobretudo no que diz respeito a questões estéticas de beleza.

É evidente que as tecnologias não são as únicas responsáveis por esses danos. No entanto, é também evidente a relação indelével desses números com o fato de que essas crianças e adolescentes são filhos e filhas de adultos absolutamente capturados pelas dinâmicas da vida acelerada, da sociedade do cansaço, do mundo 24/7, da cultura da velocidade, do consumo e da produtividade tóxica.

Em seu livro, Haidt sugere adiar o acesso a smartphones e redes sociais, adotar escolas sem celular, mais tempo de brincadeira livre e ação coletiva de pais (para evitar pressão social).

Fonte: UOL